Cerimónia comemorativa do 33.º aniversário do Regimento de Guarnição n.3(RG3)

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É com muita honra que aqui estou no 33.º aniversário do RG3, o Regimento de Guarnição n.º 3.

Esta casa, esta única unidade militar da Zona Militar da Madeira, que constitui um regimento misto de infantaria e artilharia, distinguida por Sua Excelência o Presidente da República com o título de Membro Honorário da Ordem do Mérito, atribuído há precisamente 10 anos, representa muito para a Madeira e Porto Santo.

Comecemos pelo B19, o Batalhão de Infantaria n.º 19.

A Madeira era então atrasada, rural, fechada em si mesmo, servil e sobretudo desigual.

O que melhor retrata esse tempo é o nosso baile pesado, símbolo de uma vida rural, com os corpos em posturas pesadas e dobradas.

Muitos dos jovens que aqui chegavam, oriundos dos profundos vales ou de isoladas fajãs, nunca tinham frequentado uma escola, as suas vidas estavam moldadas para ajudar a família na terra ou a emigração.

E ao entrar naquela porta de armas esperava-lhes, em longínquas paragens, uma guerra que não compreendiam.

Deixavam em casa pais destroçados e angustiados, sem saber se haveria regresso.

Mas eram corajosos, resilientes e o espírito de camaradagem - que fica para a vida - moldado pela necessidade de sobrevivência, fê-los tudo enfrentar, certamente com a esperança de regressar a casa e abraçar os seus.

Alguns deles, fruto do convívio com oficiais mais consciencializados com a situação política e com os seus direitos, viriam a devolver o estado de direito democrático a Portugal.

Foi desta casa, e de muitas outras unidades semelhantes, que saíram os jovens que fizeram o 25 de Abril, génese do regime autonómico.

Depois o RIF, o Regimento de Infantaria do Funchal.

E o aqui perto GAG 2, Grupo de Artilharia de Guarnição.

Nos alvores da democracia e da autonomia.

Já não havia guerra.

Só então a Madeira começava a mudar.

Aos poucos foram surgindo as novas e modernas estradas, escolas nas freguesias e concelhos, apoios sociais.

Os tempos eram de esperança, de acreditar num futuro melhor.

Recordo-me, em 1981, de aqui ter feito a inspecção militar.

Muitos dos que comigo estavam ainda vinham da tal Madeira profunda, se calhar era a primeira vez que vinham ao Funchal.

Tímidos, limitavam-se, sem grandes palavras, a responder ao que lhes era perguntado.

Aqui incorporados, a vida era nova.

Independentemente da situação social de origem, todos usavam a mesma farda.

Eram tratados como iguais.

Como portugueses.

E, com o tempo, o convívio, mas sobretudo com os valores aqui aprendidos, os jovens foram mudando.

Uma outra visão da sociedade e do mundo.

Muito mais aberta.

A cidade também já era deles.

Muitos aqui tiraram carta de condução.

Outros foram pela primeira vez ao continente no âmbito de formações mais específicas em unidades militares nacionais.

O serviço militar obrigatório terminou em 2004.

Quem esteve no RIF tem hoje mais de 50 anos de idade.

De todos só se escuta gratidão e o reconhecimento de valores – a camaradagem, a disponibilidade para o colectivo e para os outros, a disciplina, a honra, a lealdade, a coragem, o patriotismo e o compromisso – que aqui ganharam para a vida.

Agora o RG3.

Há poucas semanas tive a honra de visitar esta unidade, o que muito agradeço ao Senhor Comandante da Zona Militar da Madeira e ao Senhor Comandante do RG3.

E o que vou de seguida descrever foi o que vi nessa visita.

Uma demonstração de regaste de um refém, utilizando modernas e preparadíssimas técnicas militares.

Os soldados desta unidade não estão isolados nestas Ilhas.

Têm acesso a toda a preparação no âmbito nacional e internacional, nas organizações a que pertencemos.

As relações com as unidades militares de Canárias são muito fortes.

A formação no estrangeiro é usual, como recentemente sucedeu em Saragoça.

Há uma unidade pronta para ser projectada para qualquer missão no âmbito da Nato, União Europeia, ONU e acordos bilaterais ou multilaterais de Portugal.

Há uma subunidade projectada na Roménia.

O que já sucedeu na Bósnia, Kosovo, Iraque, Afeganistão, Timor e Moçambique.

Também vi a utilização de drones, com militares especializados no seu manuseamento e utilização.

Depois vi a capacidade de rapidamente instalar meios de retaguarda para unidades.

Estou a referir-me a meios de apoio alimentar, de alojamento, que rapidamente podem ser projectados para qualquer cenário de guerra ou de apoio à população civil.

Vi material de engenharia militar, decisivo para o apoio às manobras de infantaria e artilharia.

E vi meios de salvamento e buscas de protecção militar e civil, com militares preparados para resgatar em qualquer local das nossas ilhas.

E, claro, vi que todos os meios do RG3 estão ao serviço da população e autoridades civis.

O RG3 tem sido porto de abrigo em situações de calamidade.

Recordo-me do 20 de Fevereiro (236 pessoas), dos incêndios de 2012 (114 pessoas) e 2016 (quase 300 pessoas), do Covid (42 camas) e do incêndio do Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, São Miguel (mais de 30 doentes).

A história honra esta casa e têm sido exemplarmente cumpridos todos os vossos deveres com o País e, em particular, com a Madeira e as suas gentes.

Muito obrigado.

Funchal,16 de outubro de 2026