CERIMÓNIA COMEMORATIVA107.º ANIVERSÁRIO DO ARMISTÍCIO DA GRANDE GUERRA
51.º ANIVERSÁRIO DO FIM DA GUERRA DO ULTRAMAR
Intervenção do Representante da República para a RAM
18 de novembro de 2025
Gostaria de começar por agradecer o convite que me foi dirigido pelo Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes para presidir a esta cerimónia, neste concelho do Porto Moniz, que sempre nos acolhe de uma forma tão gratificante.
Ao promover esta cerimónia, que comemora em simultâneo o Armistício de 1918 e o fim da Guerra Colonial, a Liga dos Combatentes luta contra o esquecimento, provocado pelos tempos acelerados e inquietos do presente. Por isso se revela de tanta importância lembrar o que fomos para melhor projetarmos o futuro com as lições aprendidas.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Invocamos hoje o Armistício da Grande Guerra, o dia em cessavam as hostilidades daquela que, nos seus alvores, era idealisticamente apontada como a guerra que acabaria com todas as guerras.
Sabemos agora quão ingénua era essa ideia.
A I Grande Guerra foi um dos períodos mais negros e sinistros do século XX, dizimando mais de 20 milhões de seres humanos.
Este elevadíssimo número — desconhecido até então em conflitos europeus — ficou a dever-se, sobretudo, aos novos tipos de armamento utilizado, produto da industrialização e da inovação tecnológica, que criaram novos e eficazes instrumentos de guerra.
O resultado, trágico, foram gerações de jovens aniquiladas, nações desfeitas, e um sentimento de retrocesso civilizacional que perdurou no tempo.
Portugal pagou um preço elevado, não apenas nos campos da Flandres, nos quais o Corpo Expedicionário Português combateu em condições muito difíceis, mas também nos muitas vezes injustamente esquecidos cenários de Angola e Moçambique.
O Armistício que hoje celebramos acabou por conduzir à Paz assinada em Versalhes, a qual, infelizmente, continha em si a semente de futuros conflitos.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Passa este ano mais de meio século desde o final da Guerra do Ultramar, a última guerra em que Portugal esteve envolvido com a totalidade das suas Forças Armadas, e que deixou feridas ainda por cicatrizar e injustiças por resolver.
Ficou uma presença de séculos, substituída por uma caminhada conjunta, de comunhão entre pátrias e povos com fortes laços de união, a começar pela língua portuguesa em que todos, na riqueza de todas as suas variantes, nos exprimimos.
Na sua diversidade, os dois momentos que hoje comemoramos têm um laço em comum: as Forças Armadas Portuguesas.
A evolução do seu papel ao longo das últimas décadas não foi acompanhada pela perceção geral de que os homens – e, crescentemente, as mulheres – que envergam um uniforme militar não têm como único propósito pegar em armas num teatro de operações, mas têm, sim, uma Missão muito diversificada.
Os últimos anos têm provado a importância desse papel, em diversos momentos e muito particularmente nesta Região Autónoma, na proteção da comunidade em aluviões, incêndios e pandemias.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Em resultado das tragédias cujo fim hoje comemoramos, e de outras que infelizmente se lhes seguiram, como a II Guerra Mundial, seria de pensar que, enquanto houvesse memória, nada de semelhante voltaria a acontecer na Europa e no Mundo.
Que ao desenvolvimento económico, científico e tecnológico a que assistimos, corresponderia um crescimento da nossa civilização contemporânea no sentido da Democracia, da Paz e do respeito pela dignidade da Pessoa Humana.
Infelizmente, não é esse o Mundo em que vivemos.
Hoje mesmo, no nosso espaço europeu, morrem milhares de soldados e civis diariamente, numa guerra cruel e sem sentido, que devasta a Ucrânia e condena a maioria da população russa a sacrifícios crescentes, em nome de ambições imperiais inconfessáveis.
Uma guerra que nos obriga, enquanto Estado soberano, europeu e democrático, a prevenir o que possa acontecer no futuro, e a tomar, em conjunto com os nossos parceiros da NATO e da União Europeia, as medidas necessárias para defender a nossa civilização europeia, tal como a edificamos em conjunto com tantas dificuldades.
Aumentar a nossa despesa em Defesa não é um capricho ou uma opção ideológica; é uma inevitabilidade, se queremos garantir a Europa que construímos para as futuras gerações.
Mas gostaria, a este propósito, e enquanto ainda é tempo para pensar em estratégias, de realçar aquilo que julgo que é mister ressalvar nesse aumento da despesa em Defesa.
Antes de mais, é importante que, ao gastar mais em meios militares, se valorize o estatuto do seu pessoal, se invista sobretudo em Portugal, na nossa indústria, tecnologia e mão de obra, provocando inegáveis progressos socioeconómicos, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento do nosso País como um todo.
Temos em algumas áreas, como, por exemplo, no fabrico de drones, na construção naval e aeronáutica, empresas de vanguarda, às quais podemos e devemos recorrer para suprir as nossas necessidades militares e as dos nossos aliados.
Depois, é também importante que os meios com que as nossas Forças Armadas têm de ser robustecidas, possam ter, tanto quanto possível, utilização dual, civil e militar, como já acontece.
E, finalmente, e mais importante, impõe-se que o aumento da despesa nacional não se faça com a contração das funções sociais do Estado.
Será decerto possível encontrar formas de defender o nosso Estado Soberano e democrático sem prejudicar o Estado Social de Direito que nos orgulhamos de ser.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
É tempo de terminar estas breves palavras.
E faço-o com dois agradecimentos, ambos à Liga dos Combatentes.
Primeiro, pelo extraordinário e porfiado trabalho que vem fazendo na promoção do auxílio mútuo e na defesa dos legítimos interesses dos antigos combatentes, a quem Portugal tanto deve, num testemunho de amor à Pátria e de defesa intransigente dos valores morais e históricos do nosso País.
Na luta para melhorar o Estatuto dos ex-Combatentes, podem contar com o meu abnegado empenho por ser de elementar justiça para quem deu o melhor de si, carregando muitos de vós ainda os estigmas desses tempos de guerra.
E agradeço-vos também por este gesto, do qual tive conhecimento quando recebi o convite para aqui estar, de me concederem a honra de ser Sócio Honorário do Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes.
É uma distinção da qual não me julgo merecedor, mas que aceito com gosto.
Até porque me lembrará sempre a colaboração e apoio que tive o privilégio de dar à Liga, no esforço persistente que empreendeu para, através de monumentos, placas e toponímia, honrar os militares madeirenses que tombaram pela Pátria nos campos de batalha.
Portanto, aos atuais e anteriores órgãos sociais do Núcleo da Liga, o meu agradecimento sentido.
Vivam os nossos Combatentes!
Viva a nossa Região Autónoma da Madeira!
Viva Portugal!
Santa (Porto Moniz), 18 de novembro de 2025