1. Neste espaço de tão marcada simbologia histórica pelo qual perpassam as sombras tutelares dos nossos egrégios avós, neste espaço intemporal aglutinador das memórias dos que edificaram e sublimaram a portugalidade, neste templo sagrado importa que nos recolhamos em meditação profunda a fim de que até nós cheguem os ecos vindos do passado, a fim de na projecção dos valores que aqui se representam, sentirmos o palpitar do coração da Pátria.
E, indo ao encontro dos nossos ancestrais, porque “as nações todas são mistérios, cada uma é todo o mundo a sós”, havemos então e agora, de implorar:
“Ó mãe de reis e avó de impérios, / Vela por nós”
e vela por nós também “Pai que foste cavaleiro” pois que sendo hoje a vigília nossa:
“Dá-nos o exemplo inteiro / E a tua inteira força!”
E havemos de escutar, vindo das brumas do passado, o “rumor dos pinhais e das naus a haver”, de contemplar o rosto sério da “Princesa do Santo Gral, / Humano ventre do Império, / Madrinha de Portugal” e de seguir o cortejo místico e os sublimes instrumentos que o acompanham, entrando nesta Casa Capitular, verdadeiro altar da Pátria, contemplando emocionados, banhados pela luz ideal do espírito, a “Ínclita geração, os Altos Infantes” e o Mestre seu Pai :
“Mestre, sem o saber, do Templo, / Que Portugal foi feito ser, / Que houveste a glória e deste o exemplo / De o defender”.
E cumprindo a antevisão da escritura gravada em pedra neste Mosteiro de Santa Maria da Vitória, as naus a haver sulcaram os mares e ”foram de ilha em continente, correndo até ao fim do mundo, vendo-se a terra inteira, de repente, surgir redonda do azul profundo”.
E porque “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”, a epopeia valeu a pena, porque:
“Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”.
2. Possamos aqui e agora sentir palpitar o coração da Pátria!
E captar a sua essência no crisol em que se fundem todos os valores espirituais, afectivos, culturais, gerados e vivenciados ao longo da história pela comunidade nacional, formada pela ininterrupta cadeia de gerações repositório de tudo quanto dá carácter aos povos que a integram e de onde resultam os imperativos a que o Estado, hoje em dia fundado na legalidade democrática, como expressão política da soberania popular, se deve constituir em instrumento de construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
Uma Pátria na sua intemporalidade espiritual e afectiva é o enlace solidário e fraternal de todos quantos contribuíram para a sua formação, de todos quantos a ela pertencem e no passado pertenceram, de todos quantos a amaram e por ela trabalharam, viveram e morreram, desde a Mãe e o Pai fundadores, passando pela “Princesa do Santo Gral”, pelo vencedor de Aljubarrota e seus filhos, Altos Infantes, por Nun’Álvares, dentro de dias elevado à dignidade dos altares e à canonização pela Santa Sé, por Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, Camões, os poetas, escritores e pensadores do fecundo século XIX, o genial autor da Mensagem e todos quantos, com o suporte matricial do povo, constituíram o húmus fecundo da portugalidade.
Assim, as gerações que em cada momento integram e compõem o todo colectivo, as gerações que sucessivamente enfolham, enfloram, fruteiam e fenecem, hão-de ater-se ao legado histórico que herdaram de seus pais e seus avós, à simbologia transpessoal e intemporal da cadeia ininterrupta dos que as precederam e, desde o momento fundador construíram, edificaram, desenvolveram e sublimaram a Pátria, entendida esta como um espaço de sentimento, de afectividade, de vinculação aos valores perenes do local de nascimento, de vivências familiares, do espaço lustral dos pais, dos maiores, dos ancestrais e de todos os valores que ao longo dos séculos se foram erigindo e consolidando e se encontram agora depositados em nossas mãos para serem transmitidos às gerações do porvir.
3. Nesta data tão simbólica, nesta Sala Capitular tão carregada de profundos significados espirituais, nesta hora de recolhimento profundo, cabe a todos nós em preito de homenagem recordar e reverenciar os soldados desconhecidos que aqui repousam para sempre e por eles e para além deles todos quantos combateram e morreram por Portugal.
No desfiladeiro das Termópilas, o rei de Esparta, Leónidas, acompanhado de 300 dos seus guerreiros sustiveram, até à morte, o avanço das inumeráveis legiões de Xerxes, salvando com a imolação das suas vidas a inviolabilidade da terra mãe, permanecendo para a posteridade a mensagem heróica dos seus soldados ¬– ide dizer a Esparta que morremos aqui para cumprir as suas leis - como símbolo do sacrifício supremo, depositando a própria vida como oferenda nos altares da Pátria.
Desde então, desde a longínqua antiguidade helénica até aos nossos dias muitos exemplos similares ocorreram, devendo afirmar-se que todos os combatentes que um dia tombaram em defesa da Pátria, obedecendo às suas leis, são merecedores de que os vindouros lhes concedam os laureis simbólicos devidos ao despojamento das suas vidas.
Não há prova de amor superior à de que alguém dá quando sacrifica a própria vida por outrém.
Mas, essa prova de amor é, porventura, ainda mais sublimada, quando a vida é dada em defesa da Pátria.
E tudo isto radica no reconhecimento de quantos, conquistaram, alargaram e delimitaram o espaço da territorialidade nacional, defenderam a sua inviolabilidade, descobriram os mistérios do mar sem fim, praticando para tanto actos excepcionais de abnegação e sacrifício, numa luta titânica contra as circunstâncias hostis que de geração em geração fizeram o Portugal que nos foi legado, na dimensão dos valores e símbolos transmitidos ao longo de uma história multissecular que esteve na génese e projecção da cultura ocidental e na sua difusão junto de povos e civilizações espalhadas pelos diversos continentes.
4. E neste tempo de Abril, tempo emblemático que assinalou uma viragem histórica da sociedade portuguesa à qual foram restituídos os direitos e liberdades fundamentais, também aqui, as Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, contribuíram decisivamente para lhe devolver os grandes valores de que haviam sido despojados.
E desde então, reconhecida a sua matriz democrática, Portugal passou a desempenhar, nomeadamente através da língua e da cultura expandidas nos novos países de expressão cultural portuguesa, um papel significativo na sua projecção e afirmação no Mundo. E novamente, tanto em operações militares como em operações de manutenção de paz, as Forças Armadas cumpriram as significativas missões a que foram chamadas, com um desempenho sempre exemplar e credor do reconhecimento nacional e internacional.
Nesta cerimónia reportada embora a um preciso momento histórico – o 91º aniversário da Batalha de La Lys, na qual o Corpo Expedicionário Português, no dia 9 de Abril de 1918, na região de Flandres e no sector de Ypres, entre mortos, feridos e desaparecidos perdeu cerca de 7.500 soldados – mas na qual se assinala também o Dia do Combatente, àquela efeméride profundamente associado, haveremos de recordar e ter bem presente, a continuidade inconsútil de um povo iniciada nos alvores da nacionalidade e projectada através dos séculos até aos nossos dias, continuidade pejada de heroísmo, sofrimentos, vitórias mas também amargas derrotas que constituíram o cadinho no qual se amalgamaram as idiossincrasias tão próprias nos reconhecidos sentimentos de solidariedade, humanismo e fraternidade do povo português.
E se a abóbada não caiu, como profetizou o combatente das hostes de Nun’Alvares que a fez erguer, também os valores afirmados pela nossa história, malgrado os relativismos, o cepticismo, a indiferença e o distanciamento de alguns em relação aos ideais consubstanciados nos sentimentos profundos do povo português, jamais cairão, cabendo a todos nós, a todos quantos acreditam nos valores supremos do interesse da grei, contribuir para a sua exaltação e a sua defesa.
E para além de recordar todos quantos um dia sofreram, lutaram e tombaram ao serviço da Pátria, idealmente simbolizados pelos combatentes que jazem sob a abóbada mítica que cobre esta nobre e venerável Sala Capitular, vamos em silêncio profundo, honrando o exemplo e a memória que nos legaram curvarmo-nos comovida e respeitosamente perante o seu túmulo onde para todo o sempre repousarão.
